Quantas
foram as etapas percorridas ao iniciar este quadro entre as camadas de mim mesma
que se intercalavam nas vagarosas semanas, mesclando-se aos meus monólogos de horas
de terapia.
Em
cada pincelada uma cor adormecida que se desprendia na tentativa de buscar um
ajuste àquele esboço cru e incipiente desenhado no branco da tela. Eu diria ainda
que as pinceladas ressurgiam da imensa vontade de resistir à ausência da luz. O
recomeço poderia ser realmente comparado a uma transformação sazonal entre as
paisagens gélidas enrijecidas pela neutralidade do cinza e o desabrochar do
primeiro verde primaveril.
Cada
pincelada era uma tentativa ansiosa de me integrar à paisagem daquele caminho
iniciático, como se imaginasse que o quadro perfeito pudesse curar de minha
alma a desilusão sofrida.
Neste
propício cenário retorno ao tempo, refazendo um percurso feito em 2011, quando
meus pés descalços pisaram pela primeira vez a madeira do outono e me
convidaram a enraizar no bosque ou ancorar na própria luz que espargia
mistério. Esta era a paisagem, este era o quadro!
Eu
estava em uma das viagens místicas que fiz ao Monte Shasta durante a abertura
do Portal 11:11, conhecido por possibilitar o equilíbrio entre os aspectos
superiores e inferiores do ser. Seriam coincidências? A busca do equilíbrio se
antecipava com os passos de meus irmãos de caminhada, como se esta sequência
relembrasse o rito de uma tribo de antepassados! E o que teria sido absorvido ao
pisar aquele solo?
Era
nítida a perfeição das cores que emolduravam a natureza. O local
predispunha o despertar de uma harmonia interna composta pelo inverno outonal
que sinalizava a sua beleza e nos fazia crer que o paraíso estava realmente ali,
não diante de nós, mas dentro de nós.
E
assim foi feito: marcando as fases do quadro, a mais fina camada o cobriu feito
o palato mole da boca ou a parte mais úmida da pele que nunca recebe os raios de
sol, tão íntima e tão tênue, tão protegida que estava de todas as contaminações.
Camadas
e mais camadas se seguiram entre as seções de terapia e as aulas de pintura,
reconstruindo a pele ou minhas raízes artísticas. Ao longo de dias
intermináveis do dramático 2018, esta pele inteira se recompôs.
Alguns
quadros guardam segredos dentro de si. Aos olhos do artista, memórias,
confissões e expressões são testemunhadas em cada traçada. Não é a simples
cópia da paisagem, mas a revelação de uma fase, o encerrar de um ciclo, ou o
sepultamento de uma emoção.
E
este quadro, carregado de emoções, vagou pelo sentimento dúbio de incapacidade
e pela latência da inércia que insistia em me visitar. Foi uma infindável
catarse enterrada no meio das folhas úmidas, fazendo com que minha alma se sacudisse entre os espasmos de
uma profunda dor.
Todos
os ecos reverberavam em minha garganta até que finalmente descobri que ali
jazia uma cristalização que retesava a seiva e impedia sua fluidez. Não foram
as sombras nem a iluminação da clareira que me fizeram entrar na obra, e nem o
apelo dos amigos mais chegados e de meus familiares, mas a vontade determinada
de retornar ao caminho.
Os
caminhos marcam a nossa estrada, e esta tela não poderia ter sido criada em
outra ocasião, até suas sombras me faziam emergir em seus verdes regenerando a
minha mente com inúmeras reflexões. Verdes e amarelos são remédios de cura e introspecção e para mim foram a esperança de um recomeço na arte que por tantas
vezes se viu negligenciada.
E
ao apreciador de arte que sentir o ímpeto de entrar nesta obra, sugiro
aproveitar a expressão desta imortalidade que pulsa na atmosfera mística.
Estar frente a este caminho, ou se projetar nesta criação, certamente deixará
uma imensa vontade de seguir adiante, de pendurar-se aos galhos, abraçar suas
árvores e acreditar que sim: é possível continuar.
Obs. O quadro The Process, óleo sobre tela, de 80x90cm, foi publicado no Título - Obras.